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Os Sertões do Jacuhy

Muitas coisas vêm sendo escritas e publicadas sobre os “Sertões do Jacuhy”. Muitos pesquisadores, historiadores e professores de História têm se utilizado desta referência em seus trabalhos. Mas há também contradições, divergências e até certa perplexidade quando se trata de definir-lhe o “perfil”.

Etimologicamente, Jacuhy é a “água do jacu” – yacu-í – que, sem perder a significação, permite o sentido léxico de “rio ou ribeirão do jacu”. É denominativo de origem indígena, não importando se assim o chamavam os nativos da região ou se a adotaram os primeiros entrantes que, nesta época, praticavam a chamada “língua geral”, ou nheengatu.


Geograficamente, portanto, a expressão “sertões do Jacuhy” aparece conotada ao Rio São João, “a que os Bandeirantes das Geraes puzeram o nome Jacuhy”, conforme nos informa texto do Auto de Posse de Dezemboque, em 1761 (Cf. Documentos Interessantes, p. 66). Uma coisa, porém, é certa: os toponímicos posteriores estão sempre associados a esta denominação: Arraial de N. S. da Conceição do Jacuhy, “descubertos” do rio São João do Jacuhy, São Pedro de Alcântara e Almas do Jacuhy, e assim por diante.  


Por outro lado, a história dos “Sertões do Jacuhy” nada mais é do que um segmento da história regional mais abrangente. Neste caso, situa-se no grande movimento de configuração das três capitanias em evidência naquele momento da História do Brasil, principalmente do ponto de vista administrativo: Rio de Janeiro, São Paulo e Minas. A configuração histórica dos Sertões do Jacuhy só pode ser conhecida, conhecendo-se inicialmente os principais movimentos relacionados com a definição das divisas entre São Paulo e Minas Gerais. Daí a necessidade de uma revisão preliminar destes problemas.


         A contenda entre São Paulo e Minas já era expressiva em fins da primeira metade do século XVIII, quando da criação do Bispado de Mariana, em decorrência de dois fatores: a decadência da região aurífera da primeira fase, representada pelas conhecidas explorações de Ouro Preto, Mariana, Sabará, Congonhas, na Campanha, e outras; e a descoberta de ouro em outras áreas, que para fins didáticos podemos chamar de “minas periféricas”. Neste grupo se inserem, primeiramente, os descobertos do sul de minas, no entorno da região de Campanha, ou seja, na bacia do rio Sapucaí. Daí se conclui que a tão decantada questão de divisas entre São Paulo e Minas é decorrente do momento histórico em que se tornou necessária a inclusão destas novas áreas.


         Convém deixar claro, logo de início, que as divergências relacionadas a tal inclusão, que na prática se converteram em complicadas e exaltadas questões de fronteira entre as duas capitanias, não dizem respeito propriamente aos moradores de quaisquer das partes, e sim à implantação dos “governos”, ou seja, ao estabelecimento de aparelhos concretos de fiscalização e de tributação, os quais demandavam a demarcação das competências, a instalação de registros de controle e a nomeação de autoridades para tal fim.


A busca de uma “jurisdição” por parte de qualquer uma das capitanias envolvidas correspondia à amplitude possível de arrecadação dos dízimos, dos quintos ou das capitações, consoante a época. Implicava o acesso às fontes mineradoras, tanto do ponto de vista civil quanto religioso, já que Estado e Igreja se reservavam direitos a parcelas do ouro extraído ou das riquezas obtidas. Em decorrência, pode-se afirmar que toda a complicada questão de divisas entre São Paulo e Minas se reduzia no fundo aos problemas de “apossamentos”, com fins nitidamente fiscais.

Texto proposto para discussão do Encontro de Ibiraci em 06.08.2005

Antonio Theodoro Grilo

 

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