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Ligações Brasil e Benin, antigo Daomé

Em 1962, o Daomé tinha uma população de dois milhões de habitantes, sendo apenas cinco mil estrangeiros. Havia, entre a população 62 grupos étnicos: os Fou, na região de Porto Novo; os Baribas e os Peuls, ao Norte; os Iorubás, ao Sudoeste; os Sombas, ao Norte.



Esses grupos, além do francês, falam dialeto sudanês e cultuam, em especial, a memória de um deus chamado mahou[1].

As constantes guerras entre seus povos propiciou aos portugueses, através dos portos que tinham em outras possessões, comprar muitos escravos até o início do século XVIII. Depois, diante de problemas com outros países traficantes, o interesse comercial sobre os escravos da região foi diminuindo. Portugal voltou-se ao comércio de escravos bantus.
Cessada a fome de braços gerada pela corrida do ouro e diante de problemas locais de sucessão real, os reis de Daomé tentaram reorganizar o negócio, inclusive com troca de embaixadores e protocolos junto ao reino de Portugal. Sobre isto, a profª. Mafalda P. Zemella, em seu livro O Abastecimento da Capitania de Minas Gerais no Século XVIII, registra:
“Reciprocamente, Daomê, rei da Costa da Mina, enviou embaixadas à Bahia, em 1750, em 1795 e em 1805. A embaixada de 1795, depois de avistar-se com o governador da Bahia, dom Fernando José de Portugal, foi à Lisboa, levar mensagens de Daomê ao próprio rei”. E Mafalda cita os pertinentes documentos:
“Dom Fernando José de Portugal, em carta datada da Bahia, em 21 de outubro de 1795, acusava a chegada de embaixadores do rei Daomê. Diz ele que entrando em dúvida sobre as formalidades que com tão singulares embaixadores devia praticar, consultou os livros da secretaria e lhe constou que em 1750, no tempo em que era vice-rei do Brasil o conde de Autoguia, viera outra embaixada do mesmo rei. Dom Fernando comunicou que mandou confeccionar compridas roupas de seda para uso dos embaixadores (…). Noutra carta, datada da Bahia, em 31 de dezembro de 1796, o mesmo dom Fernando, confirmava a estada dos embaixadores na cidade e queixava-se dos trabalhos que lhe ocasionaram os visitantes: ‘persuada-se V. Exª. que não foram poucas as impertinências, grosserias e incivilidades que sofri do embaixador’ (…). Interessante é que o delegado Africano que esteve em solo baiano para estudar as condições para o intercâmbio entre as duas margens do Atlântico, tencionava também casar-se com uma baiana. O próprio rei, de Lisboa, ordenou que satisfizessem o desejo do singular diplomata; entretanto, não se efetuou o consórcio (…) ‘por muitos inconvenientes que encontrei e pela variedade com que o mesmo embaixador me falava nesta matéria, na escolha de diferentes escravas, e de outras libertas, que não achei proporcionadas para este fim”[2].
Da mesma forma, a Bahia mandou embaixadores a Daomé, como o foram Domingos Martins e Francisco Félix de Souza. Este último teria seu nome eternamente ligado ao tráfico e à história do Daomé, por fatos ocorridos no século XIX, razão porque somente nesse século é que, efetivamente, o Nordeste brasileiro se reabasteceria de negros sudaneses.
Como registra Castro Carvalho: “Daomé distinguiu-se, no século passado[3], pelo triste papel de ter sido o centro do tráfico de escravos, pelo que conservou, durante algum tempo, a denominação de Costa dos Escravos”. A seguir, o mesmo autor conta a história que consagrou Félix de Souza.
“A história conta que Adandonzam vendeu a viúva do rei Agonglo como escrava. Posteriormente, o rei Guezo, após inúmeras buscas, descobriu sua mãe – rainha – em São Luiz do Maranhão, no Brasil, onde tinha organizado um culto dos ‘voudouns’, tendo além disto feito construir um templo chamado Casa das Minas”[4].
“Neste ponto é interessante assinalarmos a presença em Daomé, do brasileiro Francisco Félix de Souza, que no ano de 1818, participou ativamente dum complô contra Adandonzam. Quando subiu ao trono, o rei Guezo proclamou, solenemente, aquele brasileiro, Conselheiro do reino, com o título oficial de ‘Chá-chá’; ou ‘Xá-xá’. Em breve, Francisco Félix de Souza, que era pobre, tornou-se riquíssimo, tendo obtido o monopólio de todo o comércio grosso e principalmente de escravos, recebendo honras reais e proclamando-se Rei de Quidah”[5].
Francisco Félix de Souza, o Chá-chá, participou, com todo direito que lhe foi dado, do poder absoluto em Daomé. Garantiu a exportação de negros para a Bahia durante todo o século XIX. Governador de Ajudá, quando da Independência, hasteou a bandeira do Brasil em apoio a dom Pedro I. Em Quidah se encontra o seu túmulo, motivo de visitação de turistas[6].
Há indícios de que os traficantes negros do Daomé, liderados pelo rei Gueso e seu amigo Chá-Chá, na verdade, geraram uma superestrutura na Bahia (Salvador), para onde foram muitos agentes escravistas que, mesmo após a proibição do tráfico, continuaram a inundar o Brasil de escravos até com documentos falsificados[7].
Ainda às vésperas da abolição, o grande fornecedor de escravos é o Nordeste brasileiro (na verdade, a Bahia) e não a África[8]. Com a abolição, muitos traficantes negros voltaram para sua terra, Daomé, hoje Benin. Voltaram ricos e até hoje constituem lá, uma elite que se julga de origem “brasileira”. Outros ficaram na Bahia, principalmente na cidade de Salvador. O que os distingue, em geral – tanto lá como aqui – é a língua que falam, o iorubá, inclusive em seus cultos aos orixás, a que chamam candomblés[9]. Este é um tema que, apesar de melindroso ao extremo, precisa ser mais bem estudado para que sobre o sofrimento daqueles que realmente foram escravos no Brasil, não se acresça mais um labéu”. Matéria extraída do livro Quilombo do Campo Grande – a História de Minas que se Devolve ao Povo, Editlora Santa Clara, Belo Horizonte, agosto-2008, p. 242.245.
A versão de que Chachá deu proteção a ex-escravos do Brasil retornados ao Daomé, registrada na Wikipédia, não tem lógica, prova e nem verossimilhança. Vide também  a outra matéria, Fortaleza de São João Baptista de Ajudá, na própria Wikipédia.  Além do mais, os escravos que Chachá vendia para o Brasil, via Bahia, não eram em geral daomenianos. Estes, no Brasil, seriam, isto sim, agentes de Chachá e seus sucessores que, extinto o “negócio”, teriam voltado para o Daomé.
Por ocasião da celebração da Semana da Consciência Negra no ano de 2009, o presidente Lula apareceu (depois tirou sua foto da matéria)  para o mundo todo, recebendo uma espécie de unção ou sagração diretamente do Chachá VIII, orgulhoso descendente do megatraficante do século XIX. Tudo isto, sob o entusiasmado beneplácito do Ministro da Cultura do Brasil, Juca Ferreira, do Governador Joacques Wagner e do Secretário de Cultura da Bahia, Márcio Meireles, além do Presidente da Fundação Palmares, Zulu Araújo. A Fundação Palmares apenas tirou do seu site a comprometedora foto de Lula vestido de roupa fornecida pelo Chachá. Mas, em 26.07.2011, encontramos ainda  esta matéria (clique e verá)
Evidente que o Sr. Chachá VIII estaria apenas retribuindo a equivocada visita que Presidente Lula fez à sua residência em fevereiro de 2006. Diplomaticamente, Chachá não poderia, em 2009, ser mal recebido no Brasil.
No entanto, assim como a visita de Lula à residência de Chachá foi equivocada, a visita deste ao Brasil, justamente por ocasião da
Semana da Cosciência Negra e justamente em Salvador, Bahia, foi inoportuna, podendo ser interpretada como ofensiva ao povo brasileiro. No entanto, o equívoco maior foi o do Presidente Lula, em 2006. 
A assessoria de Lula o levou a cometer um erro histórico, sem dúvida, gravíssimo.
Será que foi para que os brasileiros afro-descendentes se conscientizem de uma vez por todas que nasceram para serem escravos? Que nasceram para serem negociados, comprados e vendidos, ontem, com os traficantes de escravos, hoje, com os sindicalistas, com patrões e com os políticos brasileiros?
A Bahia negra não gostou nem um pouco dessa ofensa aos nossos ancestrais escravos. Ouvi isto entre 01 e 04.12.2009, diretamente de professores e alunos negros em Salvador-BA. Registre-se, também, que o 20 de novembro NÃO é feriado em Salvador, a capital do Estado mais negro do Brasil, governado por uma minoria supostamente branca.
Também em Belo Horizonte, capital do Estado mais miscigenado do Brasil, o 20 de novembro não é feriado.
Tívéssemos um ministério público e uma justiça realmente interessada na Consciência da nossa negritute antepassada e atual, as autoridades acima seriam processadas e punidas. 
Nossos ancestrais  escravizados foram, portanto,  ofendidos duas vezes pelo Governo do Presidente Lula.
O MGQUILOMBO, por hora, em nome de seus quilombolas, vem solicitar que as autoridades brasileiras acima citadas se retratem e peçam desculpas ao Povo Brasileiro.
Até 09.01.2012, NINGUÉM, pediu desculpas. Também o MP-FEDERAL até então, nada manifestou. A Fundação Palmares tirou do seu site a matéria que tinha a figura do Presidente Lula, vestindo a ridicula indumentária presenteada por Xaxá VIII. Até 23.05.2013, entra presidente sai presidente, a Fundação Palmares continua sendo uma grande fonte de empregos para miltiantes ligados às bases do governo, mormente do PT.

[1] África Contemporânea, p. 109.
[2] O Abastecimento da Capitania das Minas Gerais no século XVIII, p. 107-108.
[3] Século XIX, anos oitocentos.
[4] Veja-se que os próprios naturais do Daomé, hoje Benin, assimilaram e assumiram o nome de “minas”.
[5] África Contemporânea, p. 108-111.
[6] África Contemporânea, p. 110-111.
[7] Cadernos do Arquivo 1 – Escravidão em Minas Gerais – APM – 1988, p. 107-111.
[8] Onda Negra, Medo Branco, p. 111-112.
[9] Palavra, na verdade, de origem bantu, nada tendo a ver com a língua iorubá.