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Minas Gerais é toda bantu?

Minas Gerais é toda bantu?

Minas só, não. O Brasil é bantu.

Por volta de novembro de 2002, os confrades Falabella e Lasmar, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais – IHGMG, enviaram-me matéria publicada no Jornal do Brasil, onde pude ter notícia da maravilhosa pesquisadora e etnolinguista baiana Yeda Pessoa de Castro.

Currículo nacional e internacional para acadêmico nenhum botar defeito, Yeda, no dizer da jornalista Eliane Azevedo, explodiu a polêmica: “o idioma que se fala no Brasil não é europeu. Trata-se de um português africanizado – uma extraordinária convergência entre o banto (grupo etnolingüístico da África meridional) e a língua de Camões. ”No encontro entre as línguas africanas e o português arcaico, em lugar de surgir um conflito, houve um nivelamento, um processo de africanização”, garante a ex-diretora do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e integrante do Comitê Científico Brasileiro do Projeto Rota do Escravo, da Unesco.
Yeda não poupa filólogos e estudiosos acadêmicos para apontar que só o preconceito etnocêntrico fez com que palavras que garante ser banto, como mocotó e moranga, tenham atribuição indígena nos dicionários. E que só se estudou a cultura iorubá porque era um povo que tinha escrita[4]. ”Chegou-se a um estereótipo de que os iorubás eram superiores. Zumbi dos Palmares era banto, mas, no filme de Cacá Diegues, os palmarinos falam iorubá, quando não havia um deles ainda no Brasil”, argumenta, furibunda[5]. A tese de Yeda está exposta no recém-lançado Falares africanos na Bahia (Topbooks, 368 págs.) – que o colunista do Jornal do Brasil Millôr Fernandes classifica como sua ”atual bíblia”.
Yeda tem mesmo total razão.
Segundo números tabulados por Maurício Goulart[6], o maior pico de sudaneses ocorreu em 1720, 60,22% da população negra, quando começou a decrescer velozmente ante o crescimento dos bantus que chegaram a ser 86,41% em 1790, contra apenas 13,59% de sudaneses.

DÉCADA

SUDANÊS

% S/TOT

BANTU

% S/ TOT

TOTAL

MÉDIA ANO

1701-1710

83,700

54.46

70,000

45.54

153,700

15,370

1711-1720

83,700

60.22

55,300

39.78

139,000

13,900

1721-1730

79,200

54.14

67,100

45.86

146,300

14,630

1731-1740

56,800

34.20

109,300

65.80

166,100

16,610

1741-1750

55,000

29.71

130,100

70.29

185,100

18,510

1751-1760

45,900

27.10

123,500

72.90

169,400

16,940

1761-1770

38,700

23.51

125,900

76.49

164,600

16,460

1771-1780

29,800

18.47

131,500

81.53

161,300

16,130

1781-1790

24,200

13.59

153,900

86.41

178,100

17,810

1791-1800

53,600

24.19

168,000

75.81

221,600

22,160

1801-1810

54,900

26.62

151,300

73.38

206,200

20,620

TOTAIS

605,500

32.01

1,285,900

67.99

1,891,400

189,140

Méd/Década

55,045

32.01

116,900

67.99

171,945

17,195

Mas não é só. Duas questões há a acrescentar: a) os números acima provavelmente abranjam também São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Mato Grosso e não apenas as Minas, onde é provável que o número de sudaneses fosse menor ainda; b) no caso de Minas, não só os pretos eram em maioria bantu, como os próprios brancos, mormente os chamados de “ilhéus”, cuja maioria, na verdade vinha de Angola, Moçambique e outras possessões bantos da África, de onde conheciam as línguas por serem naturais ou moradores de longa data nessas colônias portuguesas.
Neste sentido, não nos esqueçamos de que hoje não é mais mera tese de que o povo brasileiro, até a descoberta das Minas, falava quase que exclusivamente a língua geral. Assim, no outro lado da moeda, mais uma vez acertou na mosca a maravilhosa etnolinguista: “(…) o africano adquiriu o português como segunda língua e foi o principal responsável pela difusão da língua portuguesa em território brasileiro”[7]. Evidente que convivendo com os portugueses em Angola e Moçambique, esses bantus tinham pelo menos alguma noção do português, quando não o falavam correntemente.

 Somos mesmo BANTOS – Ver também que a própria Bahia está

 DESFAZENDO O MITO DA PREDOMINÂNCIA E SUPREMACIA YORUBA-NAGÔ!

[4] Yorobás não tinham escrita coisa nenhuma. Como ensina Yeda, islamizados que eram, só faziam copiar textos do alcorão em língua e caracteres árabes.

[5] O filme de Cacá Diegues teve que ser redublado, tirando-se-lhe a língua yorubá.
[6] Estimativa de Maurício Goulart, in Devassa da Devassa, de Keneth Maxwel, 1995, 4ª Impressão, pgs. 290/291.
[7] Falares Africanos na Bahia, pg. 78.