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j) Inserção da história e dos ícones negros na historiografia mineira

Os atos e fatos, hoje documentados, da verdadeira contribuição negra e seus ícones na descoberta, conquista e construção das Minas Gerais precisam ser incluídos na historiografia da Pátria Mineira.

 

Como se sabe, negros na História Mineira, só são conhecidos o escravo Alexandre do padre Rolim e fiel Escravo Nicolau de Domingos Vieira, além de Capitania, o carrasco de Tiradentes. De resto, todos os atos e fatos vividos ou praticados pelos pretos foram excluídos em nossa historiografia.


História e sociologia COM o negro, em Minas Gerais

Os livros específicos sobre a participação dos negros em nossa história mineira são os seguintes:

01 – “A Abolição em Minas”,  de Oíliam José, Itatiaia, 1962, 171 págs.

Numa época em que o tema negritude ainda não tinha o trânsito que tem hoje nas Minas Gerais, Oíliam falou, com seu jeito suave, falou toda a verdade do escravismo mineiro, dando enfoque sobre os acontecimentos que antecederam a Abolição até os festejos do Treze de Maio em algumas das cidades mineiras. Foi, a meu ver, a primeira obra de inclusão do negro na Historiografia mineira. Recomendo sempre.

02 – “Negros e Quilombos em Minas Gerais”, de Waldemar de Almeida Barbosa, Edição do Autor, 1972, 182 páginas.
O autor, pesquisador laborioso, carrega muito da maneira preconceituosa de pensar de sua época, sendo, no entanto, a mais completa obra que, até então, havia sobre a trajetória quilombola nas Minas Gerais. Errou ao negar a Primeira Povoação do Ambrósio de Cristais-MG e afirmar que esse Quilombo só exisitira em Ibiá-MG

03 – “O Negro e o Garimpo em Minas Gerais”, de Aires da Mata Machado Filho, Itatiaia/Edusp, 1985, 141 páginas.
Trata-se de valiosíssimo tesouro cultural coletado e armazenado pelo autor nesse livro, que, SMJ, não tem recebido a atenção e o destaque que merece. Livro Indispensável. Recomendo sempre. Veja in “Suplemen+o” a matéria “AFRO-DESCENDENTES – VISSUNGOS” de Sônia Queiroz e outros estudiosos.

04 – “A Negação da Ordem Escravista”, de Carlos Magno Guimarães, Ícone Editora, 1988, 171 páginas.
Livro oriundo da tese de mestrado que o autor prestou na UFMG, tendo como principal qualidade uma boa catalogação de fontes primárias listadas do Arquivo Público Mineiro – APM. Errou ao não perceber a existência da Primeira Povoação do Ambrósio, o Primeiro Quilombo do Ambrósio que ficava em Cristais-MG e não em Ibiá. 

05 – “O Negro na Economia Mineira”, de Oíliam José, Edição do Autor, 1993, 334 páginas.
O primeiro livro desse autor, “Abolição em Minas”, representou um marco tão importante para a historiografia do negro nas Minas Gerais que este, infelizmente, não o poderia jamais suplantar.

06 – “Quilombo do Campo Grande – A História de Minas Roubada do Povo”, de Tarcísio José Martins, editora A Gazeta Maçônica, 1995, 318 páginas.
Como o próprio título diz, meu livro trouxe fatos e documentos novos, aplicando a LÓGICA FORMAL na interpretação da História de Minas Gerais e inserindo nela a história dos quilombos mineiros, especialmente do Quilombo do Campo Grande e sua Confederação,  no tempo e no espaço, com cerca de 25 vilas ou núcleos quilombolas. Vem aí a segunda edição revisada, confirmada e muito ampliada.

07 – “Quilombos: Classes, Estado e Cotidiano (Minas Gerais – Século  XVIII)”, de Carlos Magno Guimarães.
Tese de doutorado em História Social, apresentada ao Departamento de História da FFLCH/USP  sob orientação da Profa. Dra. Mary L. M. Del Priori, provavelmente no  ano de 2000. Trata-se, na verdade, do próprio “Negação da Ordem Escravista”, com algumas inversões ou rearticulações.  Errou duplamente ao ignorar o trabalho do colega Tarcísio José Martins, inclusive publicado no mgquilombo,  e insistir em negar a existência da Primeira Povoação do Ambrósio, o Primeiro Quilombo do Ambrósio que ficava em Cristais-MG e Formina-MG, e não em Ibiá-MG. 

08 – Quilombo do Campo Grande – História de Minas que se Devolve ao Povo, de Tarcísio José Martins, Editora Santa Clara, Contagem-MG, agosto-2008, 1032 páginas, com o selo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais – IHGMG.
Confirma em suas 1032 páginas praticamente tudo que se afirmou na primeira, indicando suas fontes privilegiadamente primárias em 2.747 notas de rodapé, com o objetivo de propiciar a aferição e o aprofundamento no estudo, a ponto de justificar a mudança do subtítulo da primeira edição para “História de Minas que se Devolve ao Povo”. Edição esgotada em abril-2010. Prepara-se nova edição.


09 – Quilombo do Campo Grande – Ladrões da História, de Tarcísio José Martins, Editora Santa Clara, Contagem-MG, setembro-2011, 290 páginas e 855 notas de rodapé, com o selo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais – IHGMG. Revela e denuncia os nomes das autoridades que acusa em seu subtítulo e desmascara as entidades e historiadores que contribuíram para ocultar a História da Confederação Quilombola do Campo Grande, onde se destacam atualmente o IPHAN e o Ministério da Cultura sob o beneplácito de todos os governos mineiros.

Ícones Negros a serem Inseridos na Historiografia Mineira

Quanto aos ícones negros que precisam ser melhor investigados, preservados e cultuados na Historia de Minas Gerais, por enquanto, sugiro os seguintes:

Aqueles que ajudaram os reinóis a conquistar as Minas Gerais:


1 – O mulato paulista, bandeirante Duarte Lopes, verdadeiro descobridor do Ouro Preto
[1].

2 – O incógnito “valoroso negro” que foi um dos primeiros a morrer sob o fogo das escopetas paulistas no chamado Capão da Traição
[2].

3 – O negro forro chamado Lourenço da Mota que, na defesa do fortim da Ponta do Morro contra os paulistas de Amador Bueno da Veiga, com seus quinhentos negros “(…) alguns destes com armas, dos quais se formou uma companhia, (…) com os quais fez muito bem a sua obrigação e foi um dos feridos. E os mais se armaram com foices de roça e paus de pontas tostadas
[3].

4 – Merece ser estudado José Inácio Marçal Coutinho, o crioulo forro que falava várias línguas, conhecia as artes da política, suposto líder e procurador dos pretos forros e das irmandades de pretos e pardos da capitania, acabou sendo o maior de todos os capitães-do-mato, pois recebeu seu título e patente em Lisboa, diretamente do rei D.José I.


Aqueles que, inconformados com o escravismo, partiram para a luta.


1 – Comecemos pelos incógnitos líderes da Inconfidência Quilombola de 1719, sudaneses e bantus, que, presos, foram condenados à morte e executados pelo conde de Assumar
[4].

2 – O Pai Ambrósio de que falam as Cartas Chilenas, ou Rei Ambrósio de que falou Gomes Freire e seu irmão José Antonio, aquele que, segundo o escriba de Pamplona, no Quilombo de Ibiá foi “(…) não afamado nestas minas como prejudicial aos moradores delas
[5]. O Rei Ambrósio e seu Conselho de Curiandambas, depois de 30 anos de luta, morreram lutando antes de 14 de novembro de 1759. Deveu-se a Ambrósio e a seus bravos quilombolas a extinção do Sistema Tributário a Capitação, este sim, os quintos dos infernos.

3 – Pedro Angola, o sucessor de Ambrósio, o chefe quilombola sobre o qual escreveu José Antonio Freire de Andrade alertando que “sendo certo que o capitão Antônio Francisco França me tem segurado, por duas ou três vezes, que EM O DITO NEGRO SE SOLTANDO NÃO FICARÁ NEGRO ALGUM NESTA CAPITANIA QUE ELE NÃO TORNE A CONDUZIR PARA OS QUILOMBOS DO CAMPO GRANDE[6]”.  

5 – Os Cinquenta Líderes do Campo Grande que, pelo mesmo caminho que passariam os Inconfidentes em 1788-1789, seguiram presos em 1760 para o Rio de Janeiro, onde foram consumidos nos trabalhos forçados de desmonte e reconstrução da Fortaleza de Villegagnon, ilha-fortaleza que hoje pode ser vista pelo Google Earth, ao lado do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Sapucaí, portanto, é ali.  Em 1789, seria recolhido ao calabouço desta fortaleza o Inconfidente José Álvares Maciel que, posteriormente seria degredado para Angola.

5 – A dupla “Bateeiro e Beixudo, ou Batieiro e Beiçudo”, líderes quilombolas do Redondo, da Pedra Menina, Susuy e Peropeba, que, após a queda do Campo Grande, deu enormes dores de cabeça para o governo, pois preso o Bateeiro, este escapava; Beixudo nunca foi preso.


6 – Isidoro, um cabra, João Costa e José Basílio, pardos, líderes garimpeiros do Tijuco, descobertos por Joaquim Felício dos Santos.


7 – Dezenas de outros líderes quilombolas que, aqui e ali, mostraram sua bravura até a Abolição, em 13 de maio de 1888.


Como se vê, heróis negros, quer de um lado, quer de outro, não faltam na história mineira. O que NÃO se pode aceitar é que de nenhum lado sejam mostrados.

 

2003 © Todos os direitos reservados a Tarcísio José Martins

 


 

[1]Fatos e nome confirmados nas seguintes obras: Passeio a Ouro Preto, Lúcia Machado de Almeida, Itatiaia/Edusp, 1980, pgs. 21/22; Vila Rica do Pilar, Fritz Teixeira Salles, Itatiaia/Edusp, 1982, pgs. 21/22;  Corografia Histórica da Província de Minas Gerais/1837, Raimundo José da Cunha Matos, Itatiaia/Edusp, 1981, Vol. I, pg. 81; Relatos Sertanistas, Afonso de E. Tounay, Itatiaia/Edusp, 1981, pg.172.

[2] Episódio da Guerra dos Emboabas e sua Geografia, de Eduardo Canabrava Barreiros, Itatiaia/Edusp, 1984, pg. 79/86.

[3] Episódio da Guerra dos Emboabas e sua Geografia”, de Eduardo Canabrava Barreiros, Itatiaia/Edusp, 1984, pg. 124.

[4] “Documentos Interessantes – SP”, vol. LIII, 1674/1720,  pg.  193.

[5] Anais da Biblioteca Nacional, Vol. 108, 1988, pg. 101.

[6] APM SC 110, fl. 135.