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f) congada cívica, ao 13 de maio

Independentemente do acerto ou não do pensamento das elites intelectuais do Movimento Negro, que decretaram a ignomínia de celebrações a essa data, o certo é que a lei da Princesa Isabel não teve o mesmo significado em todas as províncias brasileiras. O Brasil é vário.  Por exemplo, assim como a Ceará que já libertara seus escravos em 1882, houve várias outras que se anteciparam de fato; outras províncias havia em que o número de escravos era ínfimo, a exemplo de São Paulo que, através de quilombos como o do Jabaquara, incentivaram as fugas esvaziando as fazendas e cafezais.

 

Em Minas Gerais, não. Minas foi majoritariamente escravocrata até 13 de maio de 1888. Assim, a Abolição foi uma supressa geral para todos, mormente para os escravos que eram induzidos a nem imaginar que isto pudesse acontecer.

Em Dores do Indaiá, o Prof. Waldemar de Almeida Barbosa disse que foi assim:


“A notícia da libertação dos escravos chegou a Dores com atraso de vários dias, o que era natural: o único meio de comunicação era o jornal ou a carta. As leis imperiais eram transmitidas ao povo pelo padre, na missa dominical. E a surpresa causada pela Lei Áurea foi das maiores, tanto para os escravos, como para os fazendeiros e proprietários de escravo.

(…) Quando a notícia foi divulgada pelo vigário, na missa dominical, (…) o alvoroço foi enorme. Em todos os pontos da cidade o foguetório foi ensurdecedor. Logo se improvisou uma grande passeata, com banda de música, muitos fogos, vivas ininterruptos e, sobretudo, muitos discursos. (…) só o padre Vigilato Pinto Fiúza fez 12 discursos.
A negrada que se viu livre de uma hora para outra, com prejuízos incalculáveis para a lavoura, ficou presa de delírio. A fim de festejar condignamente o acontecimento, conseguiram os ex-escravos uma casa em frente à antiga estação ferroviária. Surgiram caixas de todo o lado. E começou o dão-dão-dão… A folia atravessou a noite; veio o dia seguinte e o dão-dão-dão das caixas continuou pelo dia afora; e assim se passaram três noites e três dias ininterruptos.
A princípio todo mundo achou graça naquilo e olhou com simpatia a festança dos ex-escravos. Mas, por fim, o bater contínuo, ininterrupto, monótono, começou a cansar a gente. No terceiro dia de festança, uma comissão de pessoas gradas, das mais ilustres da cidade, procurou a negrada e, com muito jeito, muita diplomacia, depois de se congratular com o ex-escravos pela sua liberdade, depois de salientar que tinham motivos de sobra para toda aquela alegria etc., foram dizendo que já haviam dançado demais; que seria de interesse deles negros que fossem tratar de algum serviço, que o povo já estava um pouco incomodado etc. E, assim, terminaram, na cidade, as comemorações pelo advento da Lei Áurea” [1] .

Como se vê, Almeida Barbosa usa expressões politicamente incorretas, mas FALOU da abolição. Em Oliveira, também houve muita festa e, segundo L. Gonzaga Fonseca, houve MANCHETE no jornal “Gazeta de Oliveira”
[2]. Esses dois autores, porém, são solitárias exceções. A grande maioria das obras historiográficas das cidades mineiras NÃO TOCA NO ASSUNTO Abolição e, muito menos, dizem qualquer coisa dos fatos que teriam acontecido em face do Treze de Maio na cidade de que contam a história.

Portanto, SMJ, as congadas cívicas de Treze de Maio – que não devem ser confundidas com a festa do Reinado do Rosário – devem ser cada vez mais incentivadas nas Minas Gerais. Até por essa força, assim como as águas vão para o mar, a historiografia das cidades acabará por ser complementada com as memórias dos últimos dias da escravidão, recebimento da notícia, comemorações e acontecimentos em face do Treze de Maio em cada arraial, vila ou cidade mineira.

A cidade de biraci-MG vai tombar o Bem Cultural Imaterial chamado
O Reinado da Comunidade Negra de seu município

 

2003 © Todos os direitos reservados a Tarcísio José Martins


[1] História de Dores de Indaiá, Waldemar de Almeida Barbosa, 1985, pgs. 89/90.

[2] História de Oliveira, L. Gonzaga da Fonseca, 1961, pgs. 407/415.